Sunday, June 16, 2013

XStream clone

Acabadinha de acabar, que é como quem diz, o quadro está quase, primeira foto. O apoio da roda traseira é o garfo do post anterior, eventualmente ainda irá ser reforçado com algum tipo de triangulação.
Para reduzir o peso tanto quanto possível sem perder na rigidez optei pela utilização do tubo quadrado de 30 mm com 1,5 mm de espessura - inicialmente pensei em fazer a parte superior em 35x35 e a inferior em 20x20, mas isso ia-me deixar com um problema sério de resistência na parte traseira do quadro, e o peso final ia dar praticamente no mesmo.
Falta quase tudo, o guiador terá que ser à medida, o assento idem e ainda não soldei a caixa da pedaleira. O comprimento total ronda os 2,40 mts (um pouco menos, mas arredondando é isso) e creio que é possível terminar com um peso inferior a 20 Kgs.
O garfo não tem aquela curva (rake) que o utilizado pela Rans tem, este é apenas um garfo standard de uma bicicleta de cidade - não é particularmente leve, mas é bastante resistente.


Há algumas melhorias relativamente à LWB que fiz anteriormente: a primeira e nem por isso muito óbvia (ainda) é a redução do comprimento - vai ser bastante mais perceptível com o assento e a pedaleira no lugar. Isto, associado à utilização de uma tubagem com uma secção menor, uma geometria mais eficiente e uma secção traseira simplificada (e sem suspensão) assegurará uma diminuição de peso que será seguramente bastante relevante. A geometria da direcção também é um pouco mais conservadora, mas graças à diminuição de comprimento consegue ainda assim reduzir em muito o efeito "tail" na direcção.

Thursday, June 06, 2013

Ainda sem fotos...

Estou a dedicar-me a mais uma reclinada. Uma grandota, desta vez - não que tenha alguma vez conseguido fazer alguma que pudesse considerar de "pequena", mas é mais uma das longas, e mais um clone - tal como já tinha tentado um clone de uma Bachetta Strada, agora decidi-me por uma coisinha com mais uns centímetrozitos de comprimento, e estou algures no início de algo semelhante a uma Rans XStream como a da imagem:


Vamos ver até que ponto as semelhanças se vão manter. Para já tenho um plano à escala com todas as medidas correctas. Este quadro - o da XStream - é bastante leve, apesar de a bicicleta completa pesar cerca de 15 Kg; parece-me claro que não vou conseguir chegar a estes numeros, dado que vou usar um material um "nadinha" mais pesado do que o alumínio (aço carbono regular, não consigo encontrar um sítio onde comprar aço 4130, bastante mais resistente e a permitir uma estrutura mais leve). Ainda assim e pelos cálculos que fiz, creio que conseguirei no final um quadro apenas ligeiramente mais pesado do que o clone da bachetta: é que na realidade o quadro em si é pouco maior, sendo a localização da roda dianteira o factor que mais contribui para o aumento do comprimento total da bicicleta. O comprimento total da cablagem será idêntico, bem assim como o da corrente; o garfo dianteiro será significativamente mais leve, e relativamente ao guiador e ao assento ainda não tenho uma idéia clara de como ficarão. Terei que fazer o assento de raíz, e de preferência adaptável (ao contrário dos anteriores) a e em função do quadro.
No sentido de manter o peso de alguma forma controlado - e tal como fiz com a anterior - vou prescindir da utilização de qualquer mecanismo de suspensão, incluindo a dianteira. E tal como na anterior, vou utilizar um garfo normal, absolutamente standard, "roubado" ao mundo das Btt para suportar a roda traseira. Contudo, e ao contrário do que fiz anteriormente, não vou alargar (forçar) o garfo dos 10 para os 13,5 cms. Foi uma experiência, mas foi uma má expêriencia: é muito difícil forçar uma estrutura concebida para um grau de resistência bastante elevado de forma a que se mantenha simétrica, e com a agravante de que os apoios dos v-brakes ficam inoperacionais.
Em alternativa, decidi-me pela seguinte alteração: cortei o garfo e voltei a soldar o suporte do eixo da roda de modo a alargar as vias, de acordo com as fotos:



A partir deste momento apenas foi necessário um ajuste muito ligeiro no sentido de garantir a operacionalidade total do conjunto. Esta solução é, quanto a mim, bastante melhor do que a anterior: mantém a integridade estrutural do garfo e a completa operacionalidade dos apoios dos travões. Como se pode ver da foto de cima, esta solução permite a utilização da cassette (à pele, mas completamente funcional). Como em qualquer coisa que tenha a ver com reclinadas, haverá seguramente que fazer uma concessão qualquer algures relacionada com o caminho da corrente.

Pese embora a fase muito inicial do projecto, pareceu-me importante deixar aqui este registo.

Saturday, November 17, 2012

O assento

A característica mais distintiva de uma reclinada é, tal como o nome indica, o facto de irmos reclinados. Verdadeiramente sentados. Deixamos de "montar" a bicicleta, deixa de ser igual a um cavalo, uma mota ou uma bicicleta "normal"; passamos a conduzir ou a pilotar. Algo assim. E uma característica distintiva tão vincada tem sempre que ter uma materialização, que no caso das reclinadas é o assento. O assento é o corpo e a alma de uma reclinada, é onde nasce a idéia da reclinada, é onde nasce o conceito e o projecto. E uma reclinada pode (por vezes tem que) fazer concessões a diferentes níveis, mas nunca no assento. O assento é o elemento que permite as duas principais vantagens das reclinadas: o conforto e a menor resistência aerodinâmica. É também um dos elementos que suporta mais esforços mecânicos, pelas razões óbvias. Convém que seja leve, mas ainda assim será sempre mais pesado do que a grande maioria dos selins; tem que ser muito robusto, e estar apoiado em pelo menos dois pontos diferentes, devido à carga que suporta. Além disso, almofadado ou não, rígido ou em tela (como as cadeiras dobráveis de campismo) terá forçosamente que ser confortável.

Relativamente ao conforto, e assumindo frontalmente que sou faccioso, depois de experimentarmos uma reclinada, os standards mudam. Já não consigo associar a palavra "conforto" nem aos inúmeros selins nem aos quinhentos mil tipos de capas de gel disponíveis no mercado. O paradoxo é simples: não podemos falar de conforto relativamente às nossas bicicletas quando somos obrigados a usar calções almofadados para suportar o óbvio desconforto. E isto não é nada contra as BTTs: sempre que vou à descoberta, levo a minha.

Voltando aos assentos e às reclinadas: numa reclinada o assento tem que suportar o peso todo do corpo. Quanto mais deitada for, melhor é a distribuição do peso mas mais difícil o equilíbrio, pelo que se torna indispensável encontrar uma solução de compromisso que variará de pessoa para pessoa - para mim este ponto situa-se entre os 40 e os 45º com a horizontal. Com base neste ângulo fiz o seguinte "molde":



Este molde permite-me fazer apenas uma curva, mas é o suficiente; a parte superior, que molda a curvatura da parte superior das costas pode ser feita facilmente recorrendo a "enchimento" (normalmente reforço as perpendiculares de madeira para dar a curvatura que quero, é a maneira mais simples e funcional de o fazer). O primeiro assento que fiz era um verdadeiro compósito: duas placas de contraplacado de 5mm com uma camada de fibra de vidro e resina epóxy no meio; além disso forrei ambas as faces com duas camadas de fibra de vidro e fibra de carbono. Se por um lado "aguenta tudo", acabou por ser mais pesado do que na realidade seria necessário. Por essa mesma razão decidi desta vez usar três camadas de contrapladado de 3mm coladas entre si com cola de madeira (para a superfície de colagem é mais do que suficiente e muito mais barata do que a resina). Uma vantagem adicional de utilizar placas mais finas é que não necessitei de fazer cortes no contraplacado para conseguir dobrar a curva em 40º - o contraplacado de 5mm exige cortes, o que implica que a colagem das placas entre si terá forçosamente que ser feita com resina, dado que a cola branca não faz  "enchimento". O resultado final acabou assim (não consegui tirar fotos da moldagem):




Esta última foto dá uma idéia de como ficou a versão "em bruto". Usando o outro assento como molde, marquei a forma e fiz os cortes da madeira em excesso. De seguida, usando o perfil do assento, cortei três peças a partir de uma placa de contraplacado de 12mm:




Prendi as três peças com dois parafusos de 8mm e lixei-as para ficarem exactamente iguais e o mais próximas possível do contorno do assento. De seguida colei-as entre si com araldite, e usando igualmente araldite, colei e aparafusei esta peça ao assento. O resultado final está ainda com este aspecto:



A razão pela qual usei araldite (que é na realidade uma resina epóxy) para além da óbvia necessidade de resistência e rigidez em anbas estas ligações, a necessidade de preencher fissuras (estou a fazer colagem de peças na perpendicular do fio da madeira).
O próximo passo será adicionar uma camada de fibra a cada um dos lados do assento e um ou dois reforços adicionais na zona da "quilha", fazer a furação e os apois para fixação na bicicleta.

Wednesday, November 14, 2012

De volta à construção

Já tenho o molde de volta, e um segundo assento na calha. Com três camadas de contraplacado de 3mm em vez das duas de 5mm que utilizei no actual e reforço traseiro em duas placas de contraplacado de 12mm (o actual não tem). Já já já deixo aqui algumas fotos do progresso da coisa...

Sunday, November 04, 2012

Bachetta Clone, dia 1

Até hoje tinham sido apenas umas voltinhas pela vizinhança, para ver como era, hoje é que teve o baptismo. Umas voltinhas de aquecimento, subi até ao castelo e segui em direcção ao Espichel. Nada por aí além, portanto. Tenho a musculatura das pernas a queixar-se um pouco mais do que seria o costume, o que é perfeitamente natural. Ainda não tenho os músculos certos a responder como deviam (nem os outros)...
Começando pelo mais fácil: a descer é fantástica. Em terreno plano é fantástica. Com mau piso, como qualquer reclinada, torna-se algo trepidante - não há a possibilidade de levantar o rabo do selim... Ainda assim vou trocar aquele pneu traseiro por um mais maneirinho, apesar de o Michelin ser fabuloso na absorção das irregularidades - em boa verdade, aquele pneu é "A" suspensão traseira. O amortecedor dianteiro, pese embora a falta de pedigree, cumpre com distinção nestas situações. Mas voltando o capítulo da performance, confirmei as minhas suspeitas: é muito previsível e equilibrada. Bom balanço, boa distribuição de peso f/t, resposta "nervosa" em baixas velocidades, bom equilíbrio. Enfrenta as subidas com razoável à-vontade, o limite é mesmo a capacidade do motor - esta foi uma sensação quase constante, irei sempre atingir o meu limite antes de chegar ao limite da bicicleta, pelo menos nos tempos mais próximos. A escolha da pedaleira foi a correcta: não sei se um prato de 24 dentes seria muito útil neste conjunto, mas os 53 do prato grande fazem um trabalho absolutamente fantástico. Em terreno plano ajudam a manter uma cadência razoável para uma velocidade um pouco mais elevada (não tenho termo de comparação para além do "parece-me que", mas na realidade tive a sensação de que conseguia ir  perceptivelmente mais depressa do que na minha btt na grande maioria do percurso, seguramente que sim em todas as descidas, por suaves que fossem, quase de certeza que sim em terreno plano.
Depois de ter apertado o travão traseiro ao limite do aceitável, acabou por ficar a funcionar bastante melhor, e sinceramente, não senti para já a necessidade de mais poder de travagem do que o que tenho - em combinado com o travão dianteiro são em princípio suficientemente potentes para uma travagem mais enérgica.
No global, parece-me ser de longe a melhor reclinada que já construí. Simples, bastante "limpa" de formas, comparativamente mais leve do que as restantes (consegue mesmo ser mais leve do que a última que tinha construído, de tracção dianteira) - o suficiente para conseguir um desempenho honesto em subida, muito equilibrada, fácil de "pilotar" e bastante agradável. 
As reacções vão desde a incredulidade até ao comentário bem disposto, na realidade ninguém fica indiferente a esta bicicleta "esquisita". Pode ser que pegue a moda.

Thursday, November 01, 2012

Bachetta clone

Desde há uns anos que me tenho dedicado à construção de modelos experimentais de veículos de propulsão humana, de algum modo em busca de um paradigma que seja a um tempo prático, funcional e com um grau de performance aceitável.  No que concerne aos veículos terrestres, por uma ou outra razão, a maioria dos protótipos falharam num ou noutro ponto - alguns em toda a linha - razão pela qual tenho voltado sempre à carga. Em alguns casos por falhas de conceptuais, noutros por inadequação do projecto à matéria-prima disponível. Ao contrário do que possa parecer, a concepção de um veículo de propulsão humana é muito complicada, e se no caso de um barco temos a vantagem de podermos de alguma forma distribuir a carga mais ou menos equitativamente por toda a estrutura, no caso de uma bicicleta ou de um triciclo isso já não acontece. Há pontos que são forçosamente sujeitos a mais esforços, e a tentativa de distribuição de carga esbarra frequentemente com detalhes não negligenciáveis como o conforto ou a manobrabilidade.
Uma das constatações do óbvio que assimilei ao longo deste tempo é que, no que concerne a propulsão humana, o principal factor a ter em conta é a eficiência. O "motor" humano é muito fraco, logo um dos objectivos deverá passar por ter um sistema com o mínimo possível de perdas, sejam estas de que ordem forem. Um outro factor que contribui decisivamente para a eficiência do conjunto é o conforto, ou melhor, o desconforto: quanto mais desconfortável a utilização de uma ferramenta, menor o tempo que se demora a atingir um estado de fadiga ou de dor insuportáveis.
Resumindo uma longa história: a posição reclinada favorece a eficiência aerodinâmica do conjunto; o percurso quase linear da corrente (no sentido do esforço) contribui para a eficiência mecânica, tal como a rigidez do quadro. A simplicidade da forma contribui para um peso final (relativamente) reduzido, a utilização de um assento amplo proporciona uma boa distribuição do peso e a inclinação confortável quer relativamente à pedaleira quer em termos absolutos contribuem positivamente no respectivo capítulo, bem assim como a utilização de um garfo com suspensão. Uma nota relativamente à altura da pedaleira: não é tão esquisito como parece à primeira. É, na realidade, bastante confortável.
Seguem as fotos (quase tudo é canibalizado/reutilizado, a começar pelo assento, a seu tempo terei que rever estes items):

O aspecto global da bixinha. O a distância entre eixos é pouco superior à da minha BTT, idem para o comprimento total, o assento está aproximadamente à altura da roda (mais ou menos como nesta outra) e o eixo da pedaleira um pouco acima (mais tarde deixarei as medidas relevantes). A distribuição do peso é bastante equilibrada, e a geometria do conjunto deverá permitir travagens "a fundo" sem qualquer problema;

Um detalhe da corrente: no sentido do esforço, o direccionamento com roletes; no sentido contrário, a utilização do tubo de mangueira. Nesta foto é visível a utilização de um garfo rígido em substituição do tradicional triângulo traseiro (garfo canibalizado à minha primeira BTT). Apesar do comportamento muito positivo, creio que ainda terei que fazer um reforço nesta zona, just in case (triangulação);

(Uma das) pedaleiras do costume: 30/43/53. Pareceu-me mais indicada do que uma 24/33/43, apesar de esta bicicleta se ter revelado muito manobrável e fácil de equilibrar em baixas velocidades, não creio que consiga ir ao ponto de justificar a utilização de uma pedaleira com uma relação tão baixa;

Um detalhe adicional de qualidade: o travão traseiro acabou por ser nesta fase um travão de BMX (abranda mal, mas não trava); a razão para isto é simples, ao ter que modificar o garfo para aceitar um eixo de 13,5 cms (as rodas dianteiras têm 10 cms) os suportes dos V-brake acabaram por ficar tão afastados entre si que se tornam inúteis. Vou ter que engendrar algo (bastante) melhor, mas para já, em testes, terá que servir.

Nestas coisas não há como dar os créditos a quem os tem: mais uma vez o design não é meu - andei durante algum tempo a estudar a Bachetta Strada, que acaba por ser a seu modo a principal fonte de inspiração para esta bicicleta. Utilizei pela primeira vez um sistema que permite variar a distância da pedaleira ao assento em grande parte porque queria testar diferentes inclinações do assento, o que acabou por não ser necessário (pelo menos para já).

Conclusões: com meia-dúzia de voltas pela vizinhança é um pouco cedo para algo mais definitivo do que apenas algumas impressões. É globalmente muito confortável, muito manobrável - eu diria que é mesmo um nada "nervosa", muito rígida, transmite uma sensação de resposta muito rápida e dá a sensação de conseguir (querer?) andar bastante depressa. É previsível e transmite uma sensação global de segurança.

Uma nota final: em tempos já tinha "derretido" uma bicicleta de hipermercado, com a qual fiz algo semelhante, com a excepção do essencial: pesava como uma bigorna, a geometria da direcção estava toda errada, o caminho da corrente era paralelo ao da suspensão traseira (sofria de perdas mecânicas absurdas), etc etc etc. Ainda assim, de todas as bicicletas que construí, foi a mais fácil, uma das mais confortáveis e paradoxalmente, uma das que melhor "trepava".

Uma outra nota relativamente à última bicicleta que construí (antes desta): Trata-se comprovadamente de um design bastante eficiente do ponto de vista mecânico, muito devido ao facto de conseguir utilizar uma corrente curta (e segundo os experts por conseguir mimetizar a utilização dos grupos musculares do tronco contra o guiador, tal como acontece nas bicicletas ditas "normais"), mas tem alguns pequenos contras um nada limitativos: a curva de aprendizagem dificílima (continuo a dizer, foi a única bicicleta com que fui ao tapete nos últimos anos) e a coordenação entre a pedaleira e a direcção, bem, ainda não domino a coisa, e por último, o facto de ser muito baixa, pese embora a enorme vantagem aerodinâmica, deixa sempre uma ligeira sensação de desconforto perante outros veículos (automóveis, nomeadamente). Mecânicamente tem um defeito apenas: o desviador da corrente naquela roda 20" fica demasiado próximo do solo para o meu gosto. Foram acima de tudo estas as razões que me levaram a tentar esta abordagem.

Wednesday, October 10, 2012

Espichel

E a nova "burra" cá de casa. Tem um motor eléctrico, é digamos que assim completamente diferente de tudo incluindo de qualquer coisa de que estivesse à espera... Mas falarei disto num outro post, para já apenas queria deixar aqui algumas fotos do Cabo Espichel:






Sunday, September 23, 2012

É uma reclinada!

Dadas as peculiaridades da bichinha, tenho-me remetido prudentemente a espaços amplos e desafogados por oposição às estradas concorridas cá da zona. O que implica de vez em quando ir para aqueles sítios onde as pessoas costumam ir passear os cãezinhos... Foi exactamente isso que aconteceu há umas horas atrás, quando partilhei o meu espaço com uma jovem cidadã reformada e a sua cadelita dálmata, que fazia tudo ao contrário do que lhe era ordenado. E como seria de esperar, tinha aquela predilecção por bicicletas que por vezes nos traz encontros imediatos com o asfalto... Bem, para o caso, foi o pretexto para a senhora vir ter comigo a saber o que era isto onde eu estava. "é uma bicicleta reclinada", disse-lhe, ao que ela me respondeu que nunca tinha visto nenhuma assim. "Pois, em Portugal há poucas, é normal que nunca tenha visto nenhuma". "Ah, mas não é deficiente!" - "Não, não sou..." - "Ah, eu estava ali a olhar e a pensar coitado, tão novo e já deficiente" - "Não, é uma bicicleta normal, não é para deficientes... " 
"Pois pois"...

E aqui ficam as fotos à chegada a casa, o descanso é o próprio pedal, é assim mesmo... Simples, não é? Cada vez gosto mais desta bixinha. E a confiança vem aos poucos com a prática. Espero em breve sair para a estrada.



Friday, August 24, 2012

FWD MBB

Mais um palavrão - dois, no caso.  Front Wheel Drive, Moving Bottom Bracket... Em Português seria algo como Tracção Dianteira e Apoio de Pedaleira Móvel. Algo assim.
Já me tinha prometido a mim mesmo uma coisinha destas (http://covadaonca.blogspot.pt/2012/06/e-para-desmoer.html). e... aqui está.

Antes de mais, e para não dar aqui ares de andar a evangelizar seja o que for, tenho que dizer que a única vez que fui ao tapete nestes últimos anos foi hoje, e foi nesta coisinha. Nem a compridona com um guiador do tamanho do Titanic foi tão difícil de acostumar. 

Agora voltando ao que interessa: depois de ler inúmeros artigos, comentários e entradas em fóruns maioritáriamente em língua Francesa - por alguma razão que me escapa os anglo-saxónicos parecem ser um nada mais conservadores com esta abordagem - fiquei curioso o suficiente para tentar, nem que fosse para perceber que não funcionaria nunca. Pesando os pontos contra - a perda de tracção em situações limite e a curva de aprendizagem, tendencialmente longa, e a dificuldade em controlar a bicicleta também, que também é amplamente discutida nos fóruns, com os pontos a favor - simplicidade, rigidez estrutural, design compacto, e a performance, claro, decidi-me mesmo a avançar com uma abordagem razoavelmente conservadora e dentro dos recursos disponíveis.

Uma dos grandes desafios deste design consiste em minimizar a interferência na direcção pela força exercida na pedalada, tal e qual como nos triciclos em que a maioria de nós deu as primeiras pedaladas - salvaguardem-se as devidas diferenças. Outras questões que vi levantadas prendiam-se com a dificuldade de pedalar em curva e pela pressão adicional exercida nos joelhos, tema que aparentemente preocupa muita gente nos fóruns... 
Relativamente ao primeiro problema, geometria. Manter o eixo da pedaleira aproximadamente ao nível do assento, o eixo da direcção tão perto quanto possível da linha dos quadris e com uma inclinação de cerca de 55º são as linhas-guia mais conservadoras para este tipo de design, e também as que têm obtido melhores resultados. Esta geometria garante também a menor interferência possível do eixo da direcção com as pernas em curva.

Posso garantir desde já que a aprendizagem não é nem linear nem pacífica ou sequer desprovida de riscos; com efeito o cérebro tem que ser reeducado para utilizar a anca (e não os joelhos, como tenho visto incorrectamente referido nos fóruns) como parte integrante da direcção. Um facto deveras interessante que notei foi a maior necessidade de utilizar as pernas como elemento de equilíbrio do que em qualquer outra reclinada em que tenha andado. Mas para já (e com muito poucas horas de prática) nada que me indique qualquer esforço adicional ao nível dos joelhos, apenas da anca.

O quadro principal foi feito a partir do tubo do quadro de um triciclo, ao qual soldei um garfo de btt (1"1/8) e que triangulei com dois tubos de aço de secção circular (20x1mm). A caixa da direcção foi soldada a cerca de 55º e apesar do peso do assento - que também serve como peça de reforço estrutural, dado que está aparafusado em três sítios diferentes, todo o conjunto (mesmo com a roda montada e pneu cheio) se revela extremamente leve, ao contrário da metade dianteira, que tem os dois desviadores, a cassette, a pedaleira e a corrente, para além do tubo de reforço da direcção. O guiador é de uma bicicleta de cidade, bastante largo por sinal. A roda dianteira foi canibalizada de uma Da-Hon, e dado que o diâmetro de uma roda 26" é 1,3 vezes superior ao de uma roda 20", utilizei uma pedaleira 30-42-53 que mantém uma razão idêntica com uma de 24-33-43 - ou seja, em teoria esta bicicleta deveria conseguir acompanhar com qualquer btt no asfalto, dado que o que perde em diâmetro de roda ganha na pedaleira.
A parte dianteira é comparativamente mais pesada do que a traseira, e o trail de cerca de 8 cms não ajuda nada a manter aquela roda a direito com a bicicleta parada. Ainda assim consegui equilibrá-la contra o lancil do passeio, o que não consigo de todo com a minha btt, que deve andar mais ou menos pelo mesmo peso. Com a excepção do travão traseiro, todos os outros elementos estão na metade dianteira da bicicleta, o que ajuda (e de que maneira) a 
manter a cablagem relativamente curta. Utilizei parte do triângulo traseiro de uma btt antiga (ainda em aço), mas tive que encurtar a distância entre a pedaleira e o eixo da roda
A almofada do assento e o apoio da cabeça estão temporários, mais tarde arranjarei algo mais ao nível do resto.

Para já, e da curtíssima experiência que tenho: tenho que praticar (muito) mais. A segunda coisa prende-se com a performance: é estranho utilizar a anca para curvar, mas não deixo de ter a sensação de que é absolutamente natural. A terceira, ainda no campo da performance: é seguramente, de todas as reclinadas que já fiz e que já experimentei, a que tem menos perdas na transmissão, quer devido ao facto de ter uma corrente muito curta quer devido à rigidez do triângulo dianteiro. A questão (amplamente debatida nos fóruns) de permitir utilizar todo o tronco e braços no esforço da pedalada - conseguindo assim aumentar o torque  e a potência da pedalada, com fortes implicações na capacidade de "trepar" parece-me um nada empolada (claro está, sempre numa óptica comparativa com a performance conseguida numa bicicleta de estrada); creio eu, numa análise muito primária e fundamentada em muito poucas horas de aprendizagem que a utilização peculiar que se faz da anca neste tipo de bicicleta terá bastante mais influência a este nível, sendo que o incremento conseguido com a minimização das perdas na transmissão não é de todo de desprezar, bem pelo contrário.

Ficam algumas fotos tiradas há pouco. Vou ter que insistir bastante mais na prática antes de me aventurar para mais longe da porta de casa.