Tuesday, October 21, 2014

Unidade de brassagem

Este é o resultado final de algum trabalho, um pouco de imaginação, bastante plágio e da paciência do senhor da loja de ferragens, que com muito boa vontade me encaminhou para uma solução mais interessante do que a que tinha concebido originalmente. Ficou como nas fotos, agora... é começar a utilizar. E antes de avançar, uma pequena explicação, para quem caiu aqui sem querer e decidiu ficar: A brassagem (maceração) é o processo que permite extrair, entre outras coisas, os açucares do malte. Pode ser feito de diferentes formas, mas na mais simples (e mais comum), implica a adição ao malte de água préviamente aquecida a uma temperatura determinada. O processo decorre dentro de um recipiente, e é exactamente aqui que começa este post: como fazer uma unidade de brassagem simples, funcional e razoávelmente barata. Para quem ainda não percebeu, porque eu também não disse, é o segundo passo no fabrico de cerveja (o primeiro é a moagem do grão). 


1 - No princípio era o verbo, no caso, o verbo "comprar". Neste caso uma geleira da Igloo de 10 galões (aproximadamente 40l), que é o ideal para fazer lotes de 20 litros de cerveja caseira. É a base da nossa unidade de brassagem, e na realidade, o trabalho está quase todo feito. Estas geleiras são concebidas originalmente como recipientes térmicos dispensadores de água, trazem de origem o encaixe para o suporte dos copos de plástico e uma pequena torneira de pressão (já desmontada, na foto) . Infelizmente nem um nem o outro nos servem de muito. Como estas não se vendem cá e como não é mesmo nada fácil encontrar uma geleira destas dimensões, há que mandar vir - de Espanha, neste caso. Chegou dois dias depois da encomenda. Os nuestros Hermanos trabalham bem, há que dizê-lo.


Continuando no ponto inicial e no verbo "comprar", uma visita ao comércio local (sim, que estas coisas não se encontram facilmente nas grandes superfícies). Algumas explicações (minhas) depois, e uma grande dose de paciência e de boa-vontade depois (estas do senhor que me atendeu) e doze euros depois, eis o que me fazia falta: uma torneira comum de bola(1/2"), uma rosca adaptadora com porca (3/4"), mais um adaptador para mangueira (com rosca de 1/2"), duas anilhas de borracha e um tubo com malha de inox. 


2 - Evoluindo no verbo, chega a parte em que é necessário meter mãos à obra, logo "trabalhar". Como a rosca que vai suportar todo o conjunto tem 3/4 de polegada e não 1/2 polegada, é necessário alargar a abertura da torneira.


Uma lima de meia-cana (nem sabia que ainda me lembrava do nome) faz o trabalho, com alguma paciência e cuidado, para manter a abertura tão circular quanto possível. Um detalhe importante: convém "subir" a abertura, desgastando para cima e para os lados, de forma a que a flange da rosca (ou a porca, neste caso é o que fica para dentro) caiba tão perpendicular quanto possível à parede da geleira. É que o fundo é arredondado, não acaba numa aresta a 90º...




Depois de confirmada a dimensão final, a brigada pirómana entra em acção com um maçarico a debitar lume brando (serve um isqueiro de bolso, mas tende a deixar manchas): é o ideal para "arredondar" as arestas e deixar a zona envolvente lisa como um espelho. Convém ter o cuidado de não pegar fogo a nada... 


Next: a rosca de 3/4 de polegada, com a flange (para fora), a porca (para o lado de dentro) e duas anilhas. Esta peça vai suportar toda a restante estrutura.


Dado que esta peça apenas tem uma porca, não tendo do outro lado nada com que segurar e impedir a rotação do conjunto, o ideal é apertar desde já a torneira. Antes de avançar, e dado que não vai ter qualquer utilidade, o filtro da torneira deve ser removido (basta desenroscar a ponteira). O filtro em si é a peça que se vê na segunda foto.



Antes de enroscar a torneira, duas ou três voltas de fita de teflon. Atenção ao sentido do aperto da torneira... 
Apesar de este sistema não lidar com água em carga, a verdade é que não vale a pena deixar uma fuga irritante e tão facilmente evitável. Vale bem a pena o teflon.


Et voilà! Depois de apertada a torneira por fora, com as anilhas de borracha em posição, o aperto da porca com uma chave inglesa (ou francesa...)...


E visto por fora...


3 - Continuando no verbo "trabalhar", o próximo passo é retirar o tubo de borracha da malha de inox. A forma simples de fazer isto? Quando se tem uma bancada com um pequeno torno, usar uma serrote de ferro (para serrar chapa). Parece manteiga, mas não é má idéia usar luvas: as pontas ficam todas escafiadas, e aqueles arames entram na pele com uma pinta danada. Convém também ter as anti-tetânicas em dia. Na foto, o tubo com as pontas serradas. Retirar a malha de inox é apenas uma questão de alguma paciência. Depois de ambas as partes separadas, o ideal é enrolar as pontas dos arames para dentro - com luvas é bastante fácil fazê-lo sem ter que recorrer a ferramentas.

Uma nota pessoal: a utilização desta malha de aço é a parte do plágio, da cópia descarada de uma idéia bastante original. Dado que no fim do processo de brassagem se torna necessário retirar o líquido do recipiente com o mínimo possível de partículas em suspensão, há que proceder a uma filtragem mais ou menos grosseira, que, sendo em parte feita com o grão em repouso no fundo do recipiente, exige a) uma estrutura de filtragem mecânicamente estável e b) capaz de manter um débito aceitável ao longo de todo o processo. Isto implica que seja feita num material razoávelmente robusto e que se estenda pelo menos ao longo do diâmetro interno da geleira. Por norma é feito em tubo perfurado de cobre ou de inox, mas neste caso a malha de inox faz exactamente o mesmo trabalho e com algumas pequenas vantagens.


Nas fotos seguintes o aspecto final da malha de filtragem já presa à ponteira com uma braçadeira de inox. A outra ponta foi apertada e dobrada no torno - tal e qual como se faz à extremidade inferior dos tubos de dentífrico. As pontas do arame dobradas para dentro ajudam a dar um acabamento limpo à extremidade presa com a braçadeira, e ajudam ao fecho da outra extremidade.




E pronto, depois de apertada a ponteira na rosca, a malha de filtragem fica com este aspecto dentro da geleira.



Notas finais: 
-É mais prático utilizar uma torneira em cotovelo (a debitar para baixo), em vez de uma torneira direita (horizontal). Contudo, se a abertura da torneira não estiver suficientemente alta, é preferível optar por uma torneira direita, isto porque não é mesmo nada prático ter a saída da torneira abaixo do fundo da geleira - quando se poisa no chão, fica a fazer demasiada força nas zona que suporta a torneira, que pode mesmo partir;
-A abertura da torneira não deve ficar tão alta que implique que abaixo do nível da mesma sobrem sempre dois ou três litros de precioso líquido; são cerca de 10% do total da brassagem, é demasiado;
-Não se deve usar tubagem que não seja latão, inox ou cobre. Só assim para não dar sabor à cerveja...





3 comments:

Axle said...

A irmã gémea, nascida breves momentos antes, utiliza uma válvula de esfera de 1/2" em vez dos 3/4" desta, o que permitiu a montagem do conjunto sem necessidade de alargar o buraco. É uma válvula das mais simples, com uma rosca fêmea de cada lado; na parde de trás aparafusei um canhão extensor que é então introduzido no buraco da geleira e aparafusado por dentro com uma porca de latão e as necessárias anilhas de borracha que vedam o conjunto; o filtro, feito com uma malha de inox idêntica à desta, é fixo por uma abraçadeira de inox directamente na rosca do canhão. Como saída, utilizei um "mamilo" em latão aparafusado do lado de fora da válvula. A torneira ficou, desta forma, horizontal, sem inclinação para baixo, e confesso que prefiro... desta forma posso ligar lá, sem a forçar, uma mangueira de silicone tendo a geleira pousada em qualquer superfície plana.

Axle said...
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Axle said...

Um pequeno comentário adicional... a aquisição do material que usei foi uma aventura bastante frustrante entre as grandes superfícies do bricolage e afins. Isto de ir à internet e tirar ideias para este tipo de projectos tem o que se lhe diga... o problema depois é encontrar as peças necessárias. Aki, Leroy Merlin, Raio Que os Parta a Todos, nunca têm tudo o que é necessário. Só com uma visitinha ao comércio tradicional é que foi possível completar a compra de material... com o bónus adicional de ver o velhote a olhar para a engenhoca que eu levava nas mãos e a pensar "mas que raio de trampa é que este gajo estará a fazer?".